AO LONGE SOBRE UM PORTO CHEIO…
Ao longe sobre um porto cheio de casas sem calefação em meio às chaminés de navio de um telhado mastreado de varais uma mulher hasteia velas sobre o vento expondo seus lençóis matinais com pregadores de madeira Oh mamífero adorável seus seios seminus arrojam sombras retesadas quando ela se estica para pendurar de alma lavada seu último pecado mas umidamente sensual ele se enrola nela agarrado à sua pele Capturada assim de braços erguidos ela atira a cabeça para trás numa gargalhada muda e num gesto espontâneo espalha então cabelo dourado
enquanto nas inatingíveis paisagens marinhas
entre lonas brancas e enfunadas
sobressaem radiantes os barcos a vapor
para o outro mundo
AWAY ABOVE A HARBORFUL…
Away above a harborful / of caulkless houses / among the charley noble chimneypots / of a rooftop rigged with clotheslines / a woman pastes up sails / upon the wind / hanging out her morning sheets / with wooden pins / O lovely mammal / her nearly naked breasts / throw taut shadows / when she stretches up / to hang at last the last of her / so white washed sins / but it is wetly amorous / and winds itself about her / clinging to her skin / So caught with arms / upraised / she tosses back her head / in voiceless laughter / and in choiceless gesture then / shakes out gold hair / while in the reachless seascape spaces / between the blown white shrouds / stand out the bright steamers / to kingdom come
QUANTO EU SAIBA ELA TALVEZ FOSSE MAIS FELIZ…
Quanto eu saiba ela talvez fosse mais feliz que qualquer um aquela anciã solitária de xale no trem com caixotes de laranja com o passarinho manso no seu lenço e sussurrando-lhe todo o tempo mia mascotta mia mascotta sem que nenhum dos excursionistas de domingo com seus cestos e garrafas prestasse qualquer atenção e o vagão chiava através dos trigais tão devagar que
borboletas
entravam e saíam
FOR ALL I KNOW MAYBE SHE WAS HAPPIER…
For all I know maybe she was happier / than anyone / that lone crone in the shawl / on the orangecrate train / with the little tame bird / in her handkerchief / crooning / to it all the time / mia mascotta / mia mascotta / and none of the sunday excursionists / with their bottles and their baskets / paying any / attention / and the coach / creaking on through cornfields / so slowly that / butterflies / blew in and out
O OLHO DO POETA OBSCENO VENDO…
O olho do poeta obsceno vendo vê a superfície do mundo redondo com seus telhados bêbados e pássaros de pau nos varais e suas fêmeas e machos feitos de barro com pernas em fogo e peitos em botão em camas rolantes e suas árvores de mistérios e seus parques de domingos no parque e estátuas sem fala e seus Estados Unidos com suas cidades fantasmas e Ilhas Ellis vazias e sua paisagem surrealista de pradarias estúpidas supermercados subúrbios cemitérios com calefação e catedrais que protestam um mundo à prova de beijo um mundo de tampas de privada e táxis caubóis de butique e virgens de Las Vegas índios sem terra e madames loucas por cinema senadores anti-romanos e conformistas [ conformados e todos os outros fragmentos desbotados do sonho imigrante real demais e disperso entre esse pessoal que toma banho de sol
THE POET’S EYE OBSCENELY SEEING…
The poet’s eye osbcenely seeing / sees the surface of thc round world / with its drunk rooftops / and wooden oiseaux on clotheslines / and its clay males and females / with hot legs and rosebud breasts / in rollaway beds / and its trees full of mysteries / and its Sunday parks and speechless statues / and its America / with its ghost towns and empty Ellis Islands / and its surrealist landscape of / mindless prairíes / super-market suburbs / stemheated cemeteries / and protesting cathedrals / a kissproof world of plastic toiletseats tampax and taxis / drugged store cowboys and Ias vegas virgins / disowned indians and cinemad matrons / unroman senators and conscientious non-objectors / and all the other fatal shorrt-up fragments / of the immigrant’s dream come too true / and mislaid / among the sunbathers
SAUDAÇÃO
A cada animal que abate ou come sua própria espécie E cada caçador com rifles montados em camionetas E cada miliciano ou atirador particular com mira telescópica E cada capataz sulista de botas com seus cães & espingardas de cano serrado E cada policial guardião da paz com seus cães treinados para rastrear & matar E cada tira à paisana ou agente secreto com seu coldre oculto cheio de morte E cada funcionário público que dispara contra o público ou que alveja-para-matar criminosos em fuga E cada Guardia Civil em qualquer pais que guarda os civis com algemas & carabinas E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual posto da barreira em tanto faz qual lado de qual Muro de Berlim cortina de Bambu ou de Tortilha E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário em calças de equitação sob medida & capacete protetor de plástico & revólver em coldre ornado de prata E cada radiopatrulha com armas antimotim & sirenes e cada tanque antimotim com cassetetes & gás lacrimogênio E cada piloto de avião com foguetes & napalm sob as asas E cada capelão que abençoa bombardeiros que decolam E qualquer Departamento de Estado de qualquer superestado que vende armas aos dois lados E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em tanto faz qual mundo Preto Pardo ou Branco que mata por sua Nação E cada profeta com arma de fogo ou branca e quem quer que reforce as luzes do espírito à força ou reforce o poder de qualquer estado com mais Poder E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam pela Paz Eu ergo meu dedo médio na única saudação apropriada
Prisão de Santa Rita, 1968
SALUTE
To every animal who eats or shoots his own kind / And every hunter with rifles mounted in pickup trucks / And every private marksman or minuteman / with telescopic sight / And every redneck in boots with dogs / & sawed-off shotguns / And every Peace Officer with dogs / trained to track & kill / And every plainclothes-man or undercover agent / with shoulderholster full of death / And every servant of the people gunning down people / or shooting-to-kill fleeing felons / And every Guardia Civil in any country guarding civilians / with handcuffs & carbines / And every border guard at no matter what Check Point Charley / on no matter which side of which Berlin Wall / Bamboo or Tortilla curtain / And every elite statetrooper highwaypatrolman in custom-tailored ridingpants & plastic crash helmet / & shoestring necktie & sixshooter in silver-studded holster / And every prowlcar with riotguns & sirens and every riot-tank / with mace & teargas / And every crackpilot with rockets & napalm underwing / And every skypilot blessing bombers at takeoff / And any State Department of any superstate selling guns / to both sides / And every Nationalist of no matter what Nation in no matter / what world Black Brown or White / who kills for his Nation / And every prophet or poet with gun or shiv and any enforcer / of spiritual enlightenment with force and any / enforcer of the power of any state with Power / And to any and all who kill & kill & kill & kill for Peace / I raise my middle finger / in the only proper salute
Santa Rita Prison, 1968
CAVALOS AO AMANHECER
Os cavalos os cavalos selvagens ao amanhecer como numa aquarela de Ben Shahn vivos em plena campina no planalto ao longe eles galopam eles bufam eles trovejam ao longe seus cascos pequeninos provocam pequenos trovões insistentemente como martelos de madeira batendo num tambor distante O sol ruge & joga as sombras dos cavalos pra fora da noite
HORSES AT DAWN
The horses the horses the wild horses at dawn / as in a watercolor by Ben Shahn / they are alive in the high meadow / in the high country on the far mesa / you can see them galloping / you can see them snorting / you can hear their thunder distantly / you can hear the small thunder / of their small hooves / insistently / like wood hammers thrumming / on a distant drum / The sun roars & / throws their shadows / out of the night
DOIS VARREDORES DE RUA NUM CAMINHÃO, DOIS RICAÇOS NUM MERCEDES
Esperando a luz verde no sinal centro de São Francisco, nove da manhã um brilhante caminhão amarelo de lixo com dois lixeiros de jaquetas plásticas [ vermelhas pendurados de cada lado do estribo traseiro olhando para um elegante casal num elegante Mercedes conversível O homem vestindo ótimo terno de linho de três peças cabelos louros até os ombros & óculos escuros A jovem negligentemente penteada saia curta e meias coloridas a caminho de seu escritório de arquitetura E os dois varredores acordados desde às Quatro da Madrugada sujando-se por todo o caminho desde suas casas O mais velho de cabelos crespos grisalhos e corcunda olhando para baixo como um Quasímodo carrancudo O mais jovem também de óculos escuros & cabelos longos quase da mesma idade do chofer do Mercedes
Os dois varredores olhando fixamente como se de uma longa distância o lépido casal como se assistindo a algum inodoro comercial [ de TV onde tudo é sempre possível
E a luz vermelha por um instante manteve os quatro juntos na mesma cena como se afinal alguma coisa fosse possível entre eles através daquele grande golfo nos altos mares desta democracia
TWO SCAVENGERS IN A TRUCK,TWO BEAUTIFUL PEOPLE IN A MERCEDES
At the stoplight waiting for the light / Nine A.M. downtown san Francisco / a bright yellow garbage truck / with two garbagemen in red plastic blazers / standing on the back stoop / one on each side hanging on / and looking down into / an elegant open Mercedes / with an elegant couple in it / The man / in a hip three-piece linen suit / with shoulder-length blond hair & sunglasses / The young blond woman so casually coifed / with a short skirt and colored stockings / on the way to his architect’s office / And the two scavengers up since Four A.M. / grungy from their route / on the way home / The older of the two with grey iron hair / and hunched back / looking down like some / gargoyle Quasimodo / And the younger of the two / also with sunglasses & longhair / about the same age as the Mercedes driver / And both scavengers gazing down / as from a great distance / at the cool couple / as if they were watching some odorless TV ad / in which every-thing is always possible / And the very red light for an instant / holding ali four close together / as if anything at ali were possible / between them / across that great gulf / in the high seas / of this democracy
Lawrence Ferlinghetti In Vida sem Fim
Tradução de Nelson Ascher, Paulo Leminski, Marcos A.P. Ribeiro e
Paulo Henriques Brito Brasiliense, São Paulo, 1984 Tradução dos textos citados:
• Nelson Ascher — "Ao longe sobre um porto cheio…", "Quanto eu saiba ela talvez fosse mais feliz…", "Era um rosto que as trevas matariam…", "Saudação"
• Paulo Leminski — "O olho do poeta obsceno vendo…"
• Paulo Henriques Britto — "Cavalos ao amanhecer"
• Marcos A.P. Ribeiro — "Dois varredores de rua num caminhão…"